domingo, 20 de dezembro de 2009

Labirintoss


Saber-me

Para a amiga Thamíres por tanto refletir sobre essa vida...

Tão incompletos e inconclusos somos.
E em cada labirinto de pensar-me,
Perco-me cada vez mais entre saber,
Desvelar e entender minha alma.

A consciência de si dói aguda
E aberta é a caixa de Pandora,
É o fio de Ariadne,
Desvelando Eros e Paco.
Deixando-os indefesos
Perante a verdade de ser o que se é.

Luz forte perante as vistas
Cegam-nos com o branco da razão,
Culpando por tudo o coração,
Culpado por ser amor,
Por ser impulso e paixão.

E quanto mais sei da minha alma,
Mais escuto a melodia labiríntica,
Aquela que cega e desnorteia
E de tão prazerosa é viciante.

Vovô



Vovô

Ao Geisiel – pelo seu contato com a terceira idade

Arrastam-se sandálias na rua,
Devagar ao prazer do tempo morno.
E a manhã deixando seus resquícios,
Para em qualquer sombra dos ipês da praça,
Meu velho avô observar o tempo correr miúdo.

O olhar idoso observa o céu e o tempo.
Sentados confortáveis de frente suas casas,
Em troncos de árvores pela metade
Com suas lembranças e miragens.
O corpo não corresponde a alma,
Ao verde já opaco de cada palavra.

E se no meu tempo...
E se um dia pudesse regressar...
O que será o íntimo entre as rugas?
Alegria de viver
Ou a tristeza de findar?

Impossível penetrar-lhe na alma,
Sentir seus ventos de angústia,
Ou o cheiro de estar no fim,
De ser o último.

Mas, há a luz da energia,
Daquele que dança nas terças,
Nada em água morna na sexta.
E se apronta com chapéu,
Sapato lustrado e camisa boa
Para o passeio no sábado.

Porque o fim nem sempre é fim.
Pode, então, ser o início.
E o meu bom velho avô?
Tanto gosto me faria,
Se aposentasse o banco dos ipês
E florescesse em seu coração
Um novo sentido de viver.

sábado, 19 de dezembro de 2009

sábado, 12 de dezembro de 2009

Mística II



Para L.

Fingi-me faceira,
Afinal preciso de dinheiro.
São as pessoas que gostam da cena
E não nego meu dom...
O que faço é realçá-lo.

A primeira consulta exige atenção,
Pois, poucas captam os sinais tão bem.
Olhar ávido é herança,
Quando triste é decepção,
Se esperto é vingança,
Se distante é paixão.

A primeira tinha cabelos desgrenhados,
Seus fios no ar diziam que não vivia,
Havia tristeza em seu olhar:
Então, receitei vinho suave para devanear
E brisa para sonhar e descansar.

A segunda usava sapatos vermelhos!
Queria, eu sentia, conquistar o impossível
E uma paixão fulminante.
Mandei respirar a brisa de um penhasco
Para o poder se apoderar de sua alma.
E... ler poesias eróticas.

Enfim o dia está salvo.
As compras e as contas também!
Sou a sua necessidade
Dou vida à sua vida.
O que receito é viver poesias.
Vinho, brisas e poemas.
Receito viver poesias.

Dicas



Dicas

Em noites perfumadas:
Taças, vinho e o olhar da amada.

Para os corajosos com paixões e vícios:
Rosas vermelhas desmanchadas em arrepios.

Para os amantes distantes, ávidos de reencontro: Beijos ardentes e fortes. Furor e suor.

Agora... Para o diamante lapidado
E para os amores esclarecidos:
Poesias eróticas, mais um vinho
E uma fuga da rotina.

Entre peles e desejos,
Silêncios e olhares,
Gestos e beijos,
Vale a atitude interior.
Sem receitas. Sem dicas. Sem moldes.
Vale o sabor, o cheiro e o contato com o amor.




Decifra-me

Uma pedra encontra-se a minha frente.
Empurro-a com força infinita e hercúlica,
Lanço palavras mágicas, quase crente,
Mas não a removo em um centímetro.

Das frestas da saída, vejo feixes de luz,
Nos quais me banho, pois quero a saída.

Feito o bater de um martelo, decifro-me,
Quero uma chave mestre, uma só magia.
E no árduo processo, de tudo aparece:
Vazios com sugestões e zéfiros na alma,
Olhares que condenam e acalantam.

Os espelhos refletem-me em espiral,
Feito a pedra obstante a minha visão.
Feito esse meu labirinto de mil lados.

O beijo do avesso completa essa saga,
Encurralado no labirinto de pedra,
Um beijo aquece meu rosto preocupado,
Sem saber seu dono deixo aquecer-me.
Arrisco-me e aposto fichas no desconhecido.

Curitiba


CURITIBA

Abriu-se a caixa de surpresas,
Resfriadas a 3 °C.
Perambulando pelas noites eurotibas:
Ora árvores secas ora canteiros floridos.
Niemeyer, um olho gigante,
Enxergou-me de perto, por dentro.
Descobriu um grande desejo de amar.

Grandes esculturas sensuais, nuas
Presenciaram, sem susto,
Verdades refinarem-se.
E serem lapidadas pelo gostoso olhar amigo.
Enfim, uma declaração: “- Te quero e Te quero”

Não me surpreendi.
Baús foram feitos para serem abertos.
Jardins Botânicos para serem cultivados.
Óperas (de Arame) para serem assistidas.
E parques (Tangüás) para serem apreciados.

Confesso que, pacientemente, esperava
Que as poções do El Mago surtissem efeito.
Mas, demoraram três noites e duas canções.
Depois, encantados pelo castelo e pela madrugada
Os passeios tornaram-se mais claros, amáveis.
Iluminados por outro Sol e por outra Lua
Nossas noites e nossos dias foram inesquecíveis.

Cheiro de Morte



Hoje, ainda vivo!

Senti a morte rondar fria
E quis assim escrever um ultimato:
O findar de um tempo
Em palavras testamentais.

Quis deixar minha senha,
Meus segredos
E os meus poemas impressos.

Quis provar que o que pulsava em mim
Era essencialmente puro amor...
Mas era também solidão,
Tristeza e alegrias de ter vencido tanto.

Quis desvelar o que estava
Por trás do meu silêncio,
Dos meus óculos embaçados,
Das mãos rápidas no teclado,
Do olhar carinhoso e ao mesmo tempo
Crítico e tantas vezes impiedoso.

Por fim a sensação de morte passou,
E a respiração que, ora era ofegante,
Retornou ao seu fluxo normal
Para que eu mais um pouco vivesse.

Não imprimi meus poemas,
Nem escrevi minhas senhas
Nem gritei ao mundo que eu o amo.

Se queres saber descubra por si os segredos,
Faça as combinações das senhas,
Olhe em meus olhos para saber-me um pouco
E veja com o meu gerente o meu saldo.

Não morro para viver em extratos ou papéis...
Se morro quero ser só o pó da lembrança,
O aperto no peito de saudade
E só... nada mais que isso.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"Tudo no mundo é secreto": arte e obscenidade em "A casa dos budas ditosos"


A prosa direta do livro remete-nos a um diálogo cujo fala é feita por um senhora sentanda em uma poltrona relatando idéias e histórias instigantes. A imagem da senhora virtuosa por conta da idade, quase setenta anos, logo é descontruída. Suas proezas são diferentes de qualquer fato saído da boca de uma mulher que tem pouco mais da idade da minha avó, é impossível não colocar a comparação. Nada é sutil, eufemizado ou labiríntico, ao contrário o texto soa realidade e verdade. As cenas rapidamente formam-se em nossa mente e é quase impossível não figurativizá-las, imaginando cada toque, por mais chocante que seja. O livro é interessante por deixar na penumbra sua construção. Assim, ficção e realidade tornam-se próximas, uma tateando os limites da outra. Segundo João Ubaldo Ribeiro, ele recebeu um pacote com a transcrição de várias fitas feitas por uma mulher misteriosa desejosa que fossem usadas na coleção da editora "Plenos Pecados".

O livro incomoda, torna-se até um empecilho para o já concebido no que condiz a sexualidade e ao que é cristalizado pelo conservadorismo e o patriarcalismo, em derrocada a muitas décadas.

Uma mulher de quase setenta anos conta suas histórias luxuriosas que envolve tudo o que estamos a recriminar e nos assustar, definitivamente o livro beira ou deságua radicalmente no obsceno, apesar de possuir passagens interessantes e bonitas, como (...)história de minha vida, ai minha história, tão rica, tão curta. Vittorio Gassman tinha razão, numa entrevista que eu vi na tevê: a vida devia ser duas; uma para ensaiar, outra para viver a sério(...).

Incesto, sexo com outras pessoas e críticas sócio-culturais, sendo concepções de vida, permeiam o livro de começo ao fim. O que move a verbalização é a estranha necessidade de contar e, também, uma doença terminal que a deixa consciente de que o seu fim está próximo: "Não sei quem foi que disse que a perspectiva de ser enforcada amanhã de manhã opera maravilhas para a concentração. Excelente constatação" (p.15)

Eis a sugestão de leitura, mas não sintam-se desavisados, a leitura pode chocar, fazer refletir e, com certeza, sair do que é usual e contido. Agora um pequeno trecho para terem uma idéia:
"Começou então a escravidão dele. No dia mesmo do banheiro, já mencionei esse dia, ele não queria me botar nas coxas em pé, atrás da porta de um banheirinho que nem bidê tinha, porque estava com medo de que a mulher dele, tia Regina, nos pegasse. Mas eu, que gostava do perigo de tia Regina nos flagrar, disse que, nesse caso, nunca mais faria nada com ele, ou ele topava ou adeus. Ele então topou e eu ainda lhe dei uma mordida no pescoço para deixar marca e ele ter de inventar uma história qualquer, ele que se lixasse, eu achava que não tinha nada a perder. (...)" (p.84)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Ensaio sobre a cegueira


Hoje uma dica de filme. “Ensaio sobre a cegueira”, obra fílmica advinda do livro de José Saramago, instiga e incomoda. Os prefixos negativos talvez tornem meu texto um pouco redundante, mas transmito o que senti ao assistir o filme. Elementos básicos para sobrevivência como higiene e comida são minimizados a ponto de colocar as vítimas da cegueira branca no limite da vida, tornando-os estáticos e sem saber o que fazer. Além de dividir espectadores, o longa metragem apresenta um colapso social. Os personagens, isolados em quarentena em um lugar sujo e sem condições mínimas de sobrevivência, vêem-se a margem da sociedade e no limite da existência. Somente a personagem de Julianne Moore consegue ver e assiste a tudo, inclusive a traição de seu marido. O humano no filme é pequeno, vândalo e a deriva. Alguns buscam união para humanizar-se, mas ao mesmo tempo outros são sórdidos e perversos. Não sabe-se a origem da cegueira e nem se sabe como a mesma se esvai. O bom é conferir o filme e sentir na arte do diretor Fernando Meirelles a fragilidade de viver.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Em transe

Hoje privilegio a verdade. Por que sendo clara e límpida acaba por fazer parte do que refletimos de nós mesmos.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Canta

Canta comigo a canção do amor.
Façamos uma só voz, uníssona.
Para dançarmos na chuva sem dor.

Estou em você. Você em mim.
Tatuagem comum, completo desenho.
Grande aliança entre braços e corpos.
Marca para a posteridade do nosso afeto.
Para sempre serei seu.
E para sempre serás minha.

Canta comigo a canção do amor.
Façamos uma só voz, uníssona.
Vamos? Dê-me suas mãos.
Dança comigo a melodia da eternidade.
E para sempre serei seu.
E para sempre serás minha.

Aproveitemos nosso tempo efêmero.
Para intensamente vivermos a nós.
Para brindarmos nossas loucuras.
Ligados, juntos e para sempre amantes

terça-feira, 28 de abril de 2009

Dor






É o que sinto. Aguda, crua e nua em minha alma. Seca meu interior. Deixa fria minha visão e abaixa meu olhar para o chão. Quando muda comigo não entendo, só sinto dor. Esparramam em meus membros, pernas, braços e contamina minha mente. Dor. Pinta meu céu de cinza e tons mais opacos. Deixa minha voz rouca, frouxa, fraca, fria, frígida. Dor. Aglomera, embolora, apodrece minha paixão. Coagula a tristeza, causa bolos de sangue triste, negro, melancólico. Amarela meu sorriso, desfaz meus músculos faciais e aperta meu peito. Dor. Falo pouco. Penso em hiatos. Enche meu olhar de lágrima e veste meus lábios de cinza. Se te chamo em vãos grandes, profundos, negros, solitárias cavernas, horizontes infinitos e linhas imaginários só surgem ecos. Dor. Dói a solidão, a mão vazia, fria, lisa, enrugada em pose de espera. Meus anéis caem feito areia entre os dedos, escorregam, desvanecem, somem, evaporam para o nunca mais. Dói a espera, a certeza do infinito, do não-mais, de conhecer seus passos e saber que não voltarás atrás. O doce lembrar cai agudo e machuca meu ser. Não sei o que é mais forte ou difícil: esquecer ou lembrar, pensar, fingir-se forte, omitir de mim mesmo o óbvio e propor-me um começo ainda com saldos negativos. (...)

sábado, 11 de abril de 2009




Gyn

Cidade nossa de mil cercas.
Canteiros, grades e listras.
Cortam e ficam entre as pessoas.
Separadas. Cada uma em seu lado.
Vive-se a vida única e individual.
A vida da vida goiana.

O asfalto grita ao contato com as rodas.
Os passos misturam a sujeira contínua.
Papéis, chicletes e um pó invisível.
De um lado a chinela de dedo imunda.
Do outro um sapato marrom de couro.
É o pó da vida goiana.

Em mim gritam nervos doloridos.
Passeiam em meu corpo inteiro.
Em meu goiano interior.
Revezam o lugar da dor.
Um dia as pernas e pés.
No outro todo o meu tronco.
Algo gélido, frio, frívolo e fraco.
É um medo esparramado e goiano.

Porém, assumo-te até o último átomo.
Capital total das variedades.
Lugar louco das travessuras mágicas.
Goiana - antítese em vida.

domingo, 15 de março de 2009

Eu

Quem sou eu?

Um vão.
Um vento.
Um esquecimento.

Um nascer de amor.
Sem medo ou terror.
Um doar-se.
Um fisgar-se.

Sou mil, milhares, muitos.
Nascido do ser amor.
Vivido e autêncio na dor.
Sou um e outros.

Sempre pronto.
Nunca certo.
Dou um passo para o infinito.
Caio do penhasco
Só pra sentir a brisa.

Um vão.
Um vento.
Um esquecimento.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Distante...

Peço desculpas, mas por esses tempos estou sem net. Assim, impossibilitado estou de fazar postagens. Garanto que assim que organizar-me volto aos poemas, contos e imagens.
Hoje vou postar um poema que já foi postado em outro blog: o Littera Denutata.


Início


Se entre as dançantes luzes olha-me.
Recuo. Não sei desses labirintos.
Seduz com o olhar faceiro.
Cruza as pernas.Realça o entre abrir da blusa.
Recuo. Não sei desses labirintos.

Mas, tomo tento e fico esperto.
Se insistir, digo: - Ensina-me?
Põe tua mão sobre a minha.
Leva-me a passear pelo seu corpo.
Mostra à minha boca.
Mostra às minhas mãos.
O caminho para sentir-te inteira.